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"Maravilhar-se", de Rachel Carson


Título: Maravilhar-se – Reaproximar a Criança da Natureza

Edição Original: The Sense of Wonder (1956)

Autor: Rachel Carson


Tradução: J. C. Costa Marques

Edição: Novembro de 2012

Editora: Campo Aberto / Edições Sempre-em-Pé

ISBN: 9789728870362

Paginação: 104 páginas


Esta é uma co-edição da associação de defesa do ambiente Campo Aberto e das Edições Sempre-em-Pé e, para além daquele belo texto de Rachel Carson, contém fotos ilustrativas, uma análise da actualidade do legado e uma pequena biografia sobre a escritora bióloga estadunidense. O que, face à extrema dificuldade de encontrar o seu seminal “Primavera Silenciosa” – sim, houve uma edição por cá, na editora Pórtico, em 1964 – constitui um acrescento valioso, face à singeleza e pequenez do texto originalmente publicado num jornal.

Inspirada pelo seu sobrinho-neto, com quem passava os dias a descobrir a natureza em torno do local onde morava, no Maine (costa este, junto ao Canadá), descreve as razões e as maneiras do porquê empreender tal tarefa, pedagógica, se assim podemos dizer.

Em primeiro, trata-se de redescobrir – mesmo que em tenras idades – os sentidos, exercitando-os com detenção e paixão. Isto implica arrancar da anestesia geral o sentido do olfacto, reaprender a escutar atentamente para discernir os pequenos sons do espaço à nossa volta. A visão será talvez aquele, hegemónico, que a sociedade do espectáculo nos ensina a usar mais vezes. O que não quer dizer usar necessariamente bem. A cada realidade suas necessidades.

Em segundo lugar, e o mais importante doravante, não será tanto inundar-nos de informações ligadas àquilo que vemos, ouvimos e cheiramos, mas sim respeitar, junto dos seres vivos (fauna e flora) e dos restantes elementos da natureza, os ritmos da contemplação e da fruição. O mistério e o descobrimento serão os pêndulos donde nascerá a paixão e o sentimento que, estes sim, ficam gravados desde cedo e não cessarão de dar frutos pelo futuro.

No futuro, então, sim, os nomes e a compreensão, científica ou de senso comum, que ligamos àquilo que presenciamos e vivemos ajudarão a completar o gosto e o respeito pela natureza.

Numa análise crítica – sendo uma auto-crítica, antes de mais – devemos dizer que este ensinamento ficará cerceado se não pudermos conviver com a natureza. Ela está por todo o lado, argumenta Rachel Carson: nos jardins, no vento, nas estrelas, na chuva, nos pequenos animais.

Sendo isto certo e ela passível de fruição, todos conhecemos quantos obstáculos o homem citadino que maioritariamente somos sentiu necessidade de criar para assim – diz, sussurrando – se sentir mais seguro: dentro de paredes (casa, supermercado, centro comercial genericamente falando, que só parecemos saber consumir…) não chove, impedimos o vento de nos bater na cara e à chuva de nos molhar; as luzes que iluminam as cidades poluem a escuridão do universo estelar e impedem-nos de vislumbrar as bolas de fogo.

Resta pouco, sóis e luas para os que não inventámos ainda fuga eficaz.


Ah, também há admiráveis mundos novos que nos transformam em robôs (é para isso que serve o trabalho, que em várias línguas eslavas é o que quer dizer) e em pessoas desprovidas de sentimento. O que é a ocultação da morte senão uma tentativa de anestesia mental e psicossomática profunda? Vai na mesma linha da destruição do que é ser-se Homem. Começa por coagir e limitar as manifestações animais que há em nós. A ver se nos “civilizam” por inteiro…

E, como capitel, a rarefacção do silêncio impede-nos da intimidade connosco mesmos. Mesmo se tiveres tempo, a ausência do silêncio manter-te-á distraído de ti mesmo até ao fim dos teus tempos.


A desumanização que a nossa domesticação proporcionou ao Homem (os animais e as plantas não no-lo pediram, mas também não interessa…) deveria dar lugar a uma selvajaria que não se sentisse tão bem com as sombras dos cemitérios do cimento.

Já seria um começo de algo diferente.

Terminámos com duas últimas notas, imprescindíveis a pretexto: 

– os tóxicos bioacumuláveis que “semeamos” com os pesticidas lembram-nos que a única dose segura é a dose zero. Pois – se é necessário explicá-lo – ao longo da cadeia alimentar, se eles não são elimináveis… é uma questão de tempo. As bombas relógio das doenças inexplicáveis como o cancro já têm explodido há alguns anos, mas isso é porque as bombas, essas, começámos a produzi-las há muito mais tempo atrás. É disto que fala o livro Primavera Silenciosa, das primaveras em que não haverá pássaros.

E numa sociedade sacarínea, sacana e gordurosa (é nos tecidos gordos que se acumulam os metais pesados) é por aí que continuamos a trilhar o rastro de destruição.

Ah, como nota ou curiosidade para os mais distraídos, refira-se que um dos grandes produtores de pesticidas é também um dos papás-papões dos transgénicos. Sim, a fantástica, tentacular e calcinante Monsanto.

– Rachel Carson viu também o que amiúde esquecemos, de tão óbvio:

“As criaturas selvagens, como os seres humanos, precisam de um lugar para viver. À medida que a civilização cria cidades, constrói estradas e seca pântanos, ela ocupa, pouco a pouco, a terra favorável à vida selvagem. E à medida que diminui os seus espaços de vida, as próprias populações da vida selvagem declinam.”

E isto já foi dito há muito tempo…

Boas leituras geográficas.

Nota: Envia a tua sugestão de leitura para georden@gmail.com que, posteriormente, publicaremos, neste mesmo espaço.

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